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A história da jovem escritora

A história da jovem escritora

Ana Viegas

Quão estranho é uma criança gostar mais de escrever do que de ler? Ainda por cima livros sem imagens! Que embirração que eu tinha com os livros sem imagens. Não parava de pensar: «quem é que se dá sequer ao trabalho de ler livros sem imagens?!». Logo eu com esta embirração; eu que cresci alimentada a livros.

 

Durante a minha infância fui muito feliz porque não me preocupava em agradar a ninguém. Fazia apenas o que me dava na real gana. Era uma criança despreocupada e brincalhona que adorava arrancar as laranjas do quintal, espetar-lhes um dedo pela casca adentro e sugar-lhes o sumo com a boca até as secar completamente.

 

Por esta altura, os nossos muitos livros, em plástico, cartão e papel, escritos em português e em espanhol, eram uma presença frequente. De entre os meus preferidos estavam aqueles com um formato diferente do habitual: Um livro quase do meu tamanho em forma de mala e que até tem uma pega? Uma casa com chaminé e tudo? Uma gata em cartão? Livros do tamanho da palma da minha mão? Uma bola de árvore de natal brilhante? Uma buzina? Imagens que saltam quando abro duas páginas? Páginas transparentes com imagens que completam as imagens das páginas brancas?

Não é de admirar que os nossos livros infantis sempre tenham ocupado uma parte considerável da estante dos livros no escritório.

Depois, aconteceu uma coisa maravilhosa: aprendi a escrever. E, mais tarde, a escrever por gosto.

Era, e ainda sou, facilmente permeável à inspiração do que me rodeia. Como daquela vez em que estava no trabalho dos meus pais a contemplar pelas frestas da persiana a chuva intensa que acumulava poças de água suja na estrada, que achei uma boa ideia para a composição livre do trabalho de casa. Na altura considerei-o uma afronta, mas hoje só o posso encarar como um elogio:

— Foram os teus pais que escreveram isto? – perguntou a minha professora dos tempos livres com a sobrancelha direita erguida e a boca semiaberta, como se tivesse deixado algo por dizer.

Não! – respondi, ofendida. Fui eu. 

 

Este é o momento que assumo como «o meu primeiro momento de escrita». E é engraçado como, muitos anos depois, ao reler esta composição, não a acho nada de especial, muito menos digna de desconfiança da sua autoria. 

 

Toda esta minha tranquilidade inconsciente foi perturbada quando comecei a estudar e a trabalhar pelos motivos errados. Não pelo meu desenvolvimento, mas para me afirmar ante os demais, para agradar aos demais.

 

Para estar plenamente disponível para os estudos, fui abandonando as atividades físicas que praticava, descuidei-me com a alimentação, negligenciei o tempo de qualidade em família e com os meus amigos. E o mais impressionante é que tudo isto aconteceu progressivamente sem que me apercebesse.

 

No decorrer de todos estes acontecimentos, aprendi a gostar de livros sem imagens.

 

Sentada no sofá da sala da lareira da casa dos meus avós, no Alentejo, com quatro livros nas mãos, que não me tinham sido oferecidos a mim, mas ao meu irmão, abri o primeiro volume nas primeiras páginas e comecei a ler.

 

Como, no alto dos meus dez anos, empaquei na palavra «muggle» e havia muitas distrações em casa, por serem raras as ocasiões em que lá íamos, não lhe voltei a pegar até mais tarde, quando um amigo me convidou e ao meu irmão para assistirmos ao filme Harry Potter e a Pedra Filosofal e me apercebi que pouco tempo antes estivera com o livro correspondente nas mãos. 

 

Li os primeiros quatro volumes da saga Harry Potter duas vezes até sair o meu preferido (em que as emoções me fizeram chorar) e, mais tarde, no fim da minha adolescência, os últimos dois.

 

Esta saga tem um lugar especial na minha estante de emoções literárias por ter sido a que me fez gostar de ler, independentemente de com ou sem imagens, e por me ter acompanhado durante tantos anos. Com efeito, comecei a ler o primeiro volume com dez anos, a mesma idade de Harry no início do primeiro livro, e terminei de ler o último volume com dezasseis anos, praticamente a mesma idade de Harry no fim do último livro. 

 

A partir daí as minhas leituras intensificaram-se e diversificaram-se ao sabor dos meus interesses e disposição.

 

No mesmo sentido, também a minha escrita recebeu mais atenção.

 

Comecei por escrever pequenos contos, ora inspirados no mundo fantasioso de reis e rainhas, ora nas histórias de terror da coleção Arrepios, de R. L. Stine. Um dia, criei uma banda-desenhada que acabou por ser sobre uma assassina numa galeria de arte porque estava demasiado cansada de desenhar e escrever ao mesmo tempo e queria era terminar a história de uma vez por todas. Se ao menos eu soubesse que não havia mal nenhum em escrever tudo de uma vez e desenhar tudo depois… De outra vez, comprei um caderno novo numa loja espanhola «dos 150$00» e comecei uma história sobre um tesouro escondido numa praia, mas nunca cheguei a terminá-la.

 

No entanto, tudo se revolucionou no verão dos meus quinze anos, quando escrevi o meu primeiro livro. 

 

Hoje, não sei bem como tudo se propiciou. Só me lembro de que no sétimo ano tinha adorado estudar a civilização egípcia de tal forma que a minha mãe me comprou uma coleção de livros e DVD que devorei. Quando dei por mim, tinha uma ideia para uma história e a vontade de escrever «um livro a sério». Então, assim que as aulas acabaram, desenvolvi-a, reparti-a por capítulos, escrevi um resumo de cada capítulo e, depois de reler os meus apontamentos sobre gramática e de comprar um dicionário de bolso da Verbo, por e simplesmente sentei-me à mesa do escritório a escrever à mão numa folha de linhas. A meio do verão, com a chegada de familiares e a entrada numa parte da história que não tinha pernas para andar tal como estava mas que eu também não conseguia solucionar, abrandei a escrita, depois abandonei-a durante algum tempo e só por pouco não desisti de a terminar. No fim do verão, ainda com a casa cheia, enchi-me de determinação e disciplinei-me para a terminar. Escrevia todos os dias, dia e noite. Quando caí em mim e me apercebi que tinha escrito o meu primeiro livro senti-me tão orgulhosa! O meu diamante em bruto, que viria a ser lapidado uma década depois. 

 

Daí em diante intensifiquei os meus momentos de escrita e experimentei outros géneros, como a crónica, a entrevista, até a poesia, além do diário e dos contos, em que me sentia mais à-vontade.

 

No entanto, como estava tão concentrada em ser uma excelente aluna, nem sempre era fácil conciliar o tempo que dedicava aos estudos com o tempo que dedicava à escrita, já para não falar de tudo o resto.

 

Inconscientemente, fui abdicando, gradualmente, do tempo que dedicava à escrita. Quando me apercebi, já não escrevia há anos.

 

Em retrospetiva, teria feito todo o sentido se tivesse, por e simplesmente, parado e ponderado se estaria a percorrer o caminho que queria realmente tomar. No entanto, estava demasiado ocupada a fazer o que a sociedade achava que devia fazer para sequer equacionar essa paragem e ponderação.

 

No decurso dos anos académicos, como lia e escrevia tantos textos técnicos, pela primeira vez na vida não tive a mínima vontade de (ou melhor, nem sequer conseguia) ler. Por mais que tentasse, simplesmente não conseguia assimilar mais letras no meu cérebro. 

 

Como se não bastasse, as pouquíssimas entradas no meu diário começavam sempre por «sei que não escrevo há imenso tempo, mas…». 

 

Por esta altura, achei pertinente ler uma série de artigos e livros sobre escrita criativa, para ver se escrevia melhor, para ver se escrevia mais. Acontece que quanto mais lia, mais perdida me sentia e menos escrevia.

 

Mais uma vez, as minhas leituras e a minha escrita ficaram em águas de bacalhau, mas não por muito tempo.

 

Felizmente, momentos houve em que fui arrebatada pelo ímpeto de ler e de escrever e em que me deixei levar; só não lhes conseguia dar sempre continuidade por existirem outras responsabilidades mais prementes. 

 

Para colmatar a minha falta de dedicação à leitura e à escrita, como em tempos idos, passeava pelos corredores dos livros em promoção, comprava aqueles a que não conseguia mesmo resistir, pedia livros emprestados, lia os livros que ainda não tinha lido, apontava num só documento todas as ideias que me iam surgindo, para mais tarde as desenvolver, escrevia contos, revia, até comecei a escrever um livro novo (que terminei, anos mais tarde, durante o NaNoWriMo de 2018). Tudo com conta, peso e medida.

 

Uma grande responsável pela revitalização do meu amor pela escrita foi a minha aluna Mariana, uma excelente aluna que também gostava de escrever, queria ser escritora, andava a escrever um livro e queria publicá-lo. Claro que lhe contei tudo o que havia para contar sobre mim e a minha relação com a escrita. Daí em diante, passámos a ter muitas conversas sobre as nossas histórias e isso foi o combustível de que precisava para reacender a minha chama da escrita. 

 

Pouco depois, tive a ideia luminosa de escrever três livros inovadores com oficinas de leitura recreativa e de escrita criativa a partir de narrativas orais portuguesas. Numa só ideia juntava vários amores: a leitura, a escrita, a criatividade e a cultura e a literatura portuguesas. Depois de muita dedicação a prepará-los, cada um a seu tempo, a Lidel Edições Técnicas aceitou publicá-los, tinha eu 24 anos, e desde então posso dizer que sou uma escritora publicada. Não podia estar mais orgulhosa de todo o meu empenho, de tudo o que tenho vindo a conquistar! 

 

Durante muito tempo estive demasiado ocupada a «marcar um visto» no que a sociedade considera o habitual a fazer-se. No entanto, apesar de ter cumprido a minha parte do acordo, tudo o que a sociedade me disse que traria estabilidade («estuda e terás um bom trabalho»; «recebe um ordenado e terás estabilidade») não trouxe. 

 

Depois de alguns «sustos» em algumas áreas da minha vida, apercebi-me de que não podia continuar como estava. Finalmente chegara o momento de parar e ponderar se estaria a percorrer o caminho que queria realmente tomar. No seguimento da minha epifania, dei início a um longo processo de autoconhecimento, em que refleti muito e agi em conformidade. 

 

Depois de me ter deixado esgotar e de perceber que não podia continuar como estava, perguntei-me o que me faria feliz. E a conclusão a que cheguei foi que seria feliz se alcançasse um bem-estar mental e físico, pautado por rituais diários, uma alimentação saudável e a prática de exercício físico, se, profissionalmente, me dedicasse à escrita, à tradução literária e ao ensino de português para estrangeiros, se me aplicasse no meu desenvolvimento pessoal e se partilhasse a minha felicidade com quem mais gosto, para, assim, sim, estar no meu melhor em todas as áreas da minha vida. 

 

Tendo identificado o que me fazia feliz e definido o meu estilo de vida ideal, e até o meu dia ideal, dependia de mim desbravar o caminho para chegar lá.

 

Foi então que decidi criar um estilo de vida equilibrado que me permitisse dedicar àquilo que mais gostava de fazer, entre várias coisas, a escrita.

 

Depois, decidi ir mais longe e profissionalizar o meu talento para a escrita. Afinal, se eu tinha este problema, certamente mais pessoas teriam o mesmo e eu poderia ajudá-las a solucioná-lo. Foi assim que em 2017 surgiu a marca pessoal Ana Viegas, que ajuda escritores motivados e criativos a dedicarem-se ao que mais amam, publicarem as suas obras e viverem em plena abundância da sua paixão.

Ao longo deste tempo, apercebi-me de que estava, efetivamente, a ajudar outros escritores, ao me dedicar à sua escrita, mas que não me estava a dedicar à minha escrita, a razão pela qual tinha começado toda esta transformação pessoal e projeto profissional. Então, que sentido fazia?

 

Assim, optei por me dedicar a 100% à minha escrita. O resultado foi a criação, no final de 2019, da Coleção de 15 livros de desenvolvimento pessoal para crianças e jovens.

 

Ciente de que queria publicar esta coleção e todos os meus anteriores e futuros livros de forma independente, colocava-se a questão: onde os vender? 

 

A ideia, dos tempos de adolescente, de criar uma editora antecipou-se e foi simplesmente natural criar a marca Calo no Dedo®, uma editora, livraria e academia de escrita online, que ajuda a desenvolver os jovens leitores e escritores de hoje que serão os adultos capacitados de amanhã através de livros divertidos e transformadores (em diferentes formatos e de forma ecológica) e através de atividades de escrita criativa. 

 

(Esqueci-me de dizer que esta parte aconteceu quando descobri que estava grávida, em plena pandemia, e acompanhou uma primeira gravidez vivida em isolamento, um parto super traumático e um pós-parto muito desafiante. As mães são mesmo super heroínas!)

 

Entre fraldas de pano, privação de sono e muitos beijinhos e abraços, continuei a ajudar outros escritores a publicar as suas obras com qualidade e continuei a dedicar-me à minha escrita, publicando a Marcela Tagarela, o Renato Fala-barato e a Coleção de 10 livros de literacia financeira para crianças e jovens.

 

Hoje em dia, tenho um estilo de vida equilibrado, dedico-me ao que mais amo, sou uma escritora motivada e criativa, publico regularmente e com qualidade as minhas obras (tocando o coração dos meus leitores e fazendo a diferença no mundo através da minha escrita) e vivo em plena abundância da minha paixão.

 

De escritora que não escrevia porque nunca tinha tempo para escrever e achava que que não era possível viver da escrita, a escritora que se dedica ao que mais ama e vive da sua paixão!

 

Tudo isto porque, um dia, uma menina deu uma oportunidade aos livros sem imagens e, assim que aprendeu a escrever, deu largas à imaginação.

 

E agora, já adulta, criei o «Clube de jovens escritores com Calo no Dedo», tudo o que queria que tivesse existido quando comecei a escrever as minhas primeiras histórias. Um programa de escrita criativa online para jovens dos 8 aos 12 anos que têm a cabeça cheia de ideias e não se importam de ficar com um calo no dedo de tanto escrever! 

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